André Fonseca “Repositório Natural”

NATURA FLUXUS

― a imanência da MATÉRIA [perpetuamente] ANIMAda ―

“Não nego a validade da astrologia, o que eu recuso é que uma pessoa se torne escravo de um único ponto de vista. Claro está que há afinidades, analogias, correspondências, ritmos celestes e ritmos terrenos… o que está por cima é igual ao que está por baixo. (…) Abomino as pessoas que filtram tudo através da única linguagem que conhecem; seja ela a astrologia, a religião, o yoga, a política, a economia, ou qualquer outra. A única coisa que me intriga neste Universo (…) é o consentir toda e qualquer interpretação. Tudo o que a seu respeito formularmos é ao mesmo tempo correcto e incorrecto. Inclui as nossas verdades e os nossos erros. E, pense-se o que se pensar do Universo, em nada o alteramos…”― Henry Miller, “A Devil in Paradise”

“O caminho para cima e o caminho para baixo são um único caminho”, é considerada a premissa basilar do monismo de Heráclito de Éfeso (circa 535 a.C. – 475 a.C.). Para Heráclito, a natureza física do Cosmos é regida por um Logos divino, uma “razão” ou um “argumento”, uma lei universal cósmica, através da qual todas as coisas existem, e pela qual todos os elementos presentes no Universo se encontram em equilíbrio. É este equilíbrio, existente entre os pares de opostos Dia e Noite, Animado e Inanimado, Masculino e Feminino, por exemplo, que conduzem à UNIDADE DO UNIVERSO, ou à ideia de que tudo é parte de um único e fundamental PROCESSO ou SUBSTÂNCIA. Heráclito considera no entanto que há tensão constantemente gerada entre estes opostos, pelo que conclui que tudo deve estar em permanente estado de FLUXO, ou mudança.

O sincretismo medieval, entre a religião e o conhecimento Clássico, ideou os conceitos de “natura naturata” [a Natureza já criada] e “natura naturans” [a Natureza a fazer o que a Natureza faz]. Ambos os conceitos encontram-se usualmente associados à filosofia de Benedictus (Baruch) Espinosa, pensador expulso aos 23 anos da sinagoga dos judeus Portugueses, em Amesterdão. Para Espinosa, “natura naturata” reporta a uma concepção da NATUREZA como o resultado passivo de uma infinita cadeia de razões, enquanto “natura naturans” refere-se à actividade auto causal da própria NATUREZA.

Em 1974, Buckminster Fuller protagonizava um documentário de 85 minutos, inteiramente dedicados ao “seu” mundo. Neste filme, Fuller, o Polímata ― a quem Marshall McLuhan designava como “O Leonardo da Vinci da nossa era”―, afirma que os cientistas do Passado, ao olharem para as estrelas, tinham uma visão instantânea do Universo, o que era um mau entendimento da Realidade. O Universo era uma “coisa” estática. Einstein, por sua vez, baseado na teoria do electromagnetismo de Maxwell, concluiu que o brilho de qualquer uma das estrelas que serenam as mentes dos espíritos contemplativos poderá eventualmente ter sido emanado há já mais de 30 000 anos. Melhor dizendo, o nosso Universo é um aglomerado de eventos não simultâneos. Algumas das estrelas por nós visionadas já nem sequer estão lá. O Universo é um cenário, uma procissão perene de simulacros, um jogo de espelhos tão ao gosto de Jorge Luís Borges, e cujos reflexos armam um Teatro do Sigilo no raiar da aurora. Só no século XX é que a Ciência mostrou que a Energia não se perde, e que o Universo, na verdade, não se está a contrair. A Energia encontra-se em permanente transformação e a sua moção cria a MATÉRIA.

“Tudo é fluxo!”, ensinou-nos Heráclito de Éfeso.

“Cada instante só existe na medida em que destruiu o instante precedente, seu progenitor”, eis-nos nos umbrais do Eterno Retorno nietzschiano. O TEMPO, esse Grande Escultor, é somente o arqui-inimigo de todo o ser senciente, o supremo adversário de toda a MATÉRIA que [perpetuamente] se anima.

Júlio Mendes Rodrigo
Porto, 07:28:07 [Quarto Crescente] 19 de Novembro de 2015, era vulgar

Texto da exposição por Júlio Mendes Rodrigo

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Exposição patente de 20 de Novembro a 1 de Dezembro de 2015

Visitas à exposição (modalidades):
– Todos os dias das 14h às 18h excepto Domingo – devem dirigir-se ao bar do CCOP (entrada no nº 202) e solicitar a abertura da exposição.
– Através de marcação para o número 917824447 (horário flexível mediante disponibilidade).
– Visita guiada e conversa com o autor na terça-feira, dia 1 de Dezembro, pelas 21:30.